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Monthly Archives: agosto 2007

a bailar

foto: web_sem crédito (manipulada)

texto: Bruno Pavão

Sem flor alguma

Fazia um mês que não a via.
Ela chegou dourada,
com aquele sorriso lindo,
seu jeito sem jeito,
uma felicidade que não se esconde,
uma simplicidade quase complexa.
Trazia na bagagem sua arte.
Mostrou-me flores, máscaras, praias, amigos, e uma bailarina tão linda que ofuscou todo o todo.
Demasiada linda, um branco espontâneo, tinha traços
jogosos por todos os lados.
Ela bailava como Pollock, traduzia um movimento
contido, um movimento entristecido, mas era espontâneo.
 A caminho do entorno me contara sua inspiração.
Não era tão bela quanto sua
chegada,
era tão triste que não pude compreender a partida recitada,
havia muito amor ali, algo tão cúmplice e recíproco que o legado é incomensurável.
Fiquei sem reação, não consegui abraça-la direito, enquanto me despedia tentava entender toda aquela arte.

Aquelas flores, máscaras, praias, amigos, faziam tanto sentido. Pude entender que sua bailarina sim, agora está linda como sempre quis, a flutuar sobre nuvens.

Ela se foi cabisbaixa, e eu com todas minhas máscaras, sem flor alguma, nem amigo pude ser.

mudra_web

foto: web_ sem crédito

texto: Bruno Pavão

Meditação

Como poderei esvaziar-me, se tanto repugnei a ignorância ?

Como posso querer desgarrar-me de tudo aquilo que lutei para preencher-me ?

O preencher-se agora transbordou-se, e ninguém me avisara dos limites .

De maneira oposta posiciono meus polegares, fecho os olhos, escuto o ar esfriar

minhas narinas.

Sinto algo transitar dentro de mim.

Meus pensamentos febris passeiam com Marinas.

Podemos recomeçar ?

 Estes sinos ainda não me dizem nada, minhas narinas sentem isso.

Sinto que será difícil substituir o todo pelo nada.

 

janela.jpg

Foto:Olivier Taugourdeau

texto: Bruno Pavão

A Janela

Agora entreaberta, com um monte de adesivos que alguém colara

sem propósito algum, talvez estético, mas um estético sem critério,

sem conceito.

Vontade que tenho é de arrancá-los, mas a janela não

é minha.

Posso abrir, fechar, empurrar, reclamar, mas não posso mudar

a maneira como quiseram que ela fosse.

Eu não sou, talvez esteja unicamente, mas ser ninguém é.

Como dizer se alguém é algo, se agora já mudou ?

Experimente tirar um retrato agora de si, tire mais um, e outro e continue

tirando sem parar, você vai perceber que todas essas fotos,

sem exceção, são diferentes, nunca somos iguais, agora somos outro,

antes também, envelhecemos ininterruptamente.

A janela, de uma forma mais sutil,  também muda, aqueles adesivos

Estão com certeza mais amarelados e feios do que quando colocados.

Mas a janela não é minha, ela não deveria me incomodar.